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Adilson Santos

Adilson Santos. Poções, BA, 1944

Adilson Santos me disse que sonha muito. São sonhos retrospectivos, recordações quase irretocáveis de sua família, sua casa, a oficina e as ferramentas do pai, marceneiro, as esquinas e os confins de sua infância em Poções, na Bahia. Estes sonhos freqüentes são interrompidos bruscamente, sempre que neles surge a figura da mãe, com rosto indefinido.

Diante da obra de Adilson Santos, esse depoimento nos faz entender a obsessiva busca na elucidação de um enigma, no exercício diário de sua pintura, e sobretudo em seus desenhos, como os primeiros surrealistas, fascinados com a grande descoberta freudiana e os conseqüentes estudos do inconsciente.

De alguns anos para cá, sua obra-já sem os arroubos alucinatórios da primeira fase, em meados dos anos 60 – encontra-se calma e amadurecida. O mistério, contudo, permanece, como no olhar oblíquo de um rosto de mulher, sempre presente mas pronto a se esconder à menor tentativa de aproximação.

Sua pintura parece liberta da razão e da lógica. Apoiada em alguns símbolos recorrentes, além da mulher enigmática, temos cajus, ovos, pêras, prateleiras, parapeitos e pombas, arrumados na superfície da tela e aparentemente desconectados entre si. Nos fundos lisos e escuros que destacam os objetos e na organizada tranqüilidade e delicadas harmonias espaciais, ele nos lembra o melhor da pintura flamenga. No entanto, se mudarmos o ângulo de visão, da técnica para a emoção, percebemos a imponderabilidade das situações, uma atmosfera de expectativas inspiradas pelos sonhos e com a simplicidade quase geométrica das figuras, iluminadas por diversos pontos de luz, de uma luz densa e pesada como em Balthus.

Passados alguns anos de sua última exposição na Bahia, quem sabe Adilson Santos não venha agora contar para todos que, fiel à sua temática, anda cada vez mais próximo da “vitória da conquista”, ao elucidar um pouquinho mais o mistério. Embora pareça preservar sempre uma parcela como reserva técnica, a ser codificada e descodificada em inúmeras outras exposições.

 

 

                                                                                                          Evandro Carneiro

                                                                                                          Rio, junho de 1999.