© 2020 Prova do Artista Galeria de Arte

Travessa Bartholomeu de Gusmão n 13,  loja 01, Rio Vermelho, Salvador - Bahia - Brasil

  • Facebook Clean

(71) 3245 1660 / (71) 3331 6247

 Em exibição 

Newton Mesquita

Newton Ferreira de Mesquita 

Nasceu em São Paulo, SP, em 1949. Iniciou carreira artística em 1975. Participou de diversas exposições coletivas, no Brasil e no exterior, como Artistas Arquitetos, no MASP, São Paulo (1991), Futebol Arte Del Brasil, em São Paulo e na cidade do México (1986), tendo recebido vários prêmios, entre os quais  o prêmio aquisição do I Salão Nacional de Artes Plásticas, em 1978 e a medalha de prata do VIII Salão Bunkyo, em 1979, realizou exposições individuais em algumas das mais importantes galerias brasileiras, na Bahia expôs na Prova do Brasil de 1984 a 2006. Suas obras integram o acervo de diversos museus, entre os quais o Museu de Arte Brasileira e o Museu de Arte de São Paulo.

“Newton Mesquita pertence àquele grupo de artistas perseguidos por uma dupla preocupação: a necessidade do registro do real dentro de uma sinalização contemporânea e o desejo criar coisas belas. (...)”

Jacob Klintowitz  

Isto é uma paisagem:

 

    No novo inventário das tentações diabólicas que está sendo elaborado por uma notável Comissão de Sábios Supranacionais, camuflada como diretória de uma firma exportada de incenso, o capítulo dos pecados do escritor é dos maiores. Entende-se aqui como escritor todos os que escrevem, de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, cujo manuscrito foi divulgado por Fernando Pessoa, até os jornalistas. Esta informação que talvez interesse a poucas pessoas na nossa sociedade fáustica tão favorável aos que cedem, vem a propósito da obra do artista paulista Newton Mesquita.
    Trabalhador compulsivo que impregnou a nossa retina de desenhos, fotografias, gravuras e pinturas, Newton Mesquita tem a curiosa peculiaridade de nos apresentar obras que nos trazem imediatamente à consciência históricas vivências particulares, como cenas urbanas, paisagens, figuras humanas, flores, situações domésticas. A tentação, devidamente registrada no novo “Códex das Tentações Hodiernas”, é usarmos a história recente da arte para narrar a hermenêutica semiótica da imagem. Neste caso, diante de uma de suas paisagens, iluminada por diferentes brancos prateados, memória lunar, enunciaríamos: “Isto não é uma paisagem”.
    É similar de uma frase extraordinária da história da arte. E o famoso título de uma pintura do belga René Magritte, onde podem ser observados um vistoso cachimbo e a frase manuscrita: “Ceci n’est pas une pipe”. É evidente que Magritte com o seu título colocado numa pintura figurativa provocava e advertia o circuito da arte para evitar o equívoco de entender uma pintura pela aparência. A pintura não é uma pintura. O paradoxo é que o assunto não é o tema. Só a pintura é tema para a pintura, nos afirma Magritte. Aquele cachimbo pintado na tela não é um cachimbo. E a pintura não é pintura, mas um não-lugar.
    E certamente poderíamos competir com o também famoso ensaio de Michel Foucault sobre Magritte que começa de maneira tão terrivelmente “cientifica”: “Primeira versão, a de 1926, eu creio: um cachimbo desenhado com cuidado e, em cima (escrita a mão, com uma caligrafia regular, como é possível encontrar servindo de modelo no alto dos cadernos escolares ou num quadro-negro, depois de uma lição de coisas) esta menção: “Isto não é um cachimbo”. A outra versão – suponho que a última – pode-se encontrá-la na “Alvorada dos Antípodas”. Competir de que maneira ? Ainda que fadado ao fracasso, tentando ser mais tedioso que o genial Foucault.
    Mais que uma derrota olímpica, um volteio verbal e um precário jogo de espírito, seria uma traição, pois aqui estamos diante de uma pintura de paisagem. E banhada de tons de cinzas quentes, cinzas frios, brancos nuançados de ocres, amarelos rebaixados, alguns tons de verde ocultos sob outros pigmentos, numa visualidade que nos leva ao agridoce sentimento de uma noite que teríamos vivido e que enunciamos para nós mesmos, na cansada tentativa de imobilizar o tempo e conter o que se nos escapou e não retornará jamais: é uma paisagem em noite de lua cheia. 

    Nos últimos 30 anos Newton Mesquita identificou, registrou e interpretou a cidade contemporânea, a vida rural com a sua nova sinalização tecnológica, as figuras humanas e o percurso do homem e de seus objetos. É notável como Newton Mesquita está atento ao contingente, ao mundo que está ao seu redor, ao entorno, aos objetos, a nós mesmos. Ele faz este minucioso inventário e nada mais lhe importa. Newton Mesquita recolhe o mundo.
    O que diferencia Newton Mesquita é que ele transfigura o cotidiano em luzes inusuais. Cores, nuanças, emergências cromáticas. O olhar através de uma desconhecida porta semi-aberta ou uma pressentida janela de persianas que filtra a emissão da derradeira estrela que antecede o nascimento de Apolo. Flagrantes, fugazes cores, conferem ao seu trabalho uma atmosfera de contemplação e, tantas vezes, de suave tristeza. O artista se movimenta na verificação do simples.

 

Jacob Klintowitz