Justino Marinho

Justino Marinho. Salvador, Bahia, 1949.

A difícil arte da pintura tem em Justino Marinho um excelente colorista, notável pela sutileza, pela inventiva e pela unidade que obtém nas harmonias tonais, qualidades já explicitadas em sua exposição de 1976 – com suas transposições de fotos sobre papel de desenho – e nas requintadas cromatizações de suas madonas.

 

Nas pinturas atuais de Justino Marinho, o tratamento da superfície da tela é parte integrante e indissolúvel da estrutura do quadro, onde predominam escalas monocromáticas e a variedade é expressa pela diversificação das pinceladas superpostas e transparentes. As vibrações tonais são sutis, mas perceptualmente permanentes. Dessa forma concebida, a matéria pictórica emana requintada, vibrátil, sensual e já organicamente comprometida com as figurações que parecem fluir, harmoniosamente, no espaço cromático.

 

Ao contrário do graffiti – embora próximas da produção de cavalete de Michel Basquiat – as pinturas de Justino apresentam uma estrutura caligráfica da forma que assume importância figural intrinsecamente relacionada com o fundo, sem perda da espontaneidade de concepção e não obstante o caráter gestual da execução. De fato, embora gestualista e espontânea, a pintura de Justino demonstra intencionalidade construtiva e grande domínio de paleta e de design. Contam para isso suas experiências anteriores com a linha, enquanto elemento limítrofe e ordenador da estrutura rítmica da forma, nas pinturas abstratas de 1992 a 1995. Em sua produção recente o elemento linear aparece em harmonia com o espaço cromático que lhe serve de suporte. São eleitas as cores quentes, amarelos e vermelhos, com matizes cozinhados com competência e sensibilidade.

 

Suas pinturas inscrevem-se na dimensão dos artistas da nova figuração, com suficiente e original personalidade. São fruto de uma intensa experiência cultural, artesanal e estética, pois Justino convive com a teoria e a prática, sendo muito importante sua atuação como crítico de arte e sua intimidade diária com o objeto estético. De vida intensa e produtiva, Justino destaca-se também na área social por sua atuação como produtor cultural, por suas curadorias e sua contribuição à política cultural do Estado da Bahia. Com Justino o artista e o indivíduo se confundem pela integridade.

 

Sua produção artística vem se desenvolvendo desde 1969, com o desenho como principal meio de expressão e de constante reflexão sobre a desumanização do homen, a automação e a robotização, e as injustiças sociais. Neste momento sua obra pictórica revela a significativa unidade de concepção e de estilo alcançada por Justino, prova de sua plena maturidade técnica e criativa.

 

 

                                                                                              Juarez Paraíso

                                                                                              Salvador, agosto de 1998.

A história da arte moderna ocupou-se obsessivamente em desintoxicar-se do jugo racionalista e repressivo do passado. Na cristalização desse embate é que podemos situar a geografia em que um artista se situa. Justino Marinho é um artista cujo trajeto e cuja obra assinalam importantes vértices de renovação das artes plásticas na Bahia, especialmente junto às gerações das décadas de 70 e 80. Não só como artista, mas também como jornalista, renovou o ideário que se instaurava naqueles anos, atualizando a nível de sintaxe um repertório que contribuiu para a reintegração da arte baiana ao cenário nacional.

 

Sua obra segue uma trajetória de trinta anos de exercício centrado deliberadamente num senso poetizante, sem contudo perder os filtros sintáticos ou as pertinências do real e da própria arte. Justino problematiza o espaço da representação tomando como cenário certos quadrantes da arte moderna. Mas o espaço que ele constrói não procura a mimesis no sentido renascentista e sim numa perspectiva estruturada pela coexistência entre a sensorialidade e o sígnico.

 

Em seus primeiros dez anos como artista Justino caracterizou-se como desenhista sensível e precionista, recorrendo a técnicas químicas para obter surpreendentes e sutis efeitos cromáticos que serviam a um desenho deliberadamente simplificado, o qual aludia às esquematizações cubistas ornadas com pulverizações da Art Nouveau. Nos anos subseqüentes o artista densificou sua pintura, adquirindo uma condição matérica que desviava o delicado cromatismo de azuis, magentas e amarelos para uma paleta marcada pelo vermelho, com demarcações em negro ou azuis escuros, reduzindo o acento gráfico e ampliando sua condição pictórica.

 

Nos trabalhos que compõem a presente mostra novas mudanças são sublinhadas. A tela é eleita como suporte e as relações são nitidamente alteradas pelas próprias peculiaridades dos materiais. Sua condição de desenhista é mantida pelo caráter gráfico com que a pintura espalha seus interesses discursivos. Há novos usos cromáticos de ocres e cinzas, assim como as grafias que, mais do que simples grafias, são construções de uma gestualidade calculada, de tal forma que mais parecem impressões sobre o espontâneo materializadas como signos que querem compor um tecido significante sobre a memória, o tempo, a cultura, o homem.

 

A pintura de Justino Marinho corrobora um caminho percorrido sem mudanças bruscas mas com tenacidade e insistência no perene, onde prevalece a poética do visível, onde a tradição não é esquecida e as aquisições do tempo presente são aludidas e absorvidas como estrutura.

 

 

                                                                                              Vauluizo Bezerra

                                                                                               Salvador, agosto de 1998.    

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